FAH-DPORT: In the media – CARLOS FIGUEIREDO APRESENTA “PROJETO LIBOLO”, Jornal Tribuna de Macau, 22-23/11/2017

28 Nov 2017


CARLOS FIGUEIREDO APRESENTA “PROJETO LIBOLO”

A Fundação Rui Cunha vai ser palco do lançamento do livro “Projeto Libolo” coordenado por Carlos Figueiredo, professor do Departamento de Português da Universidade de Macau. As pesquisas que originaram a obra abrangem cinco áreas científicas como a Linguística, a História e a Antropologia

É já na próxima segunda-feira, pelas 18:30, que a Fundação Rui Cunha recebe o lançamento do livro “Projeto Libolo”, coordenado pelo professor Carlos Figueiredo, do Departamento de Português da Universidade de Macau.

De acordo com um comunicado da Fundação Rui Cunha, “trata-se de um projecto internacional e multicultural cuja equipa de pesquisas é composta por 20 pessoas de oito instituições académicas do Brasil e Macau”.

As investigações “incidem em cinco macro-áreas de investigação científica como linguística, história, antropologia, filologia/edição de texto e ensino e formação de docentes”. Os trabalhos centram-se no Município do Libolo, província de Kwanza-Sul, Angola, que partilha características várias decorrentes da sua sócio-história, sobretudo da história esclavagista, uma vez que milhares de escravos foram levados do Libolo para diversos pontos do planeta entre os séculos XVI e XIX, tanto por navios negreiros portugueses como por holandeses, ingleses e franceses.

De recordar que ao Jornal TRIBUNA DE MACAU o docente explicou que o projecto por através das suas pesquisas ter detectado bastantes semelhanças entre um crioulo de São Tomé e o Português de Angola, em particular da região do Libolo, de onde é natural.

Em 2011, Carlos Figueiredo esteve na região a recolher dados e foi lá que se apercebeu de que havia muito mais para falar, como o caso de questões ligadas à história e à antropologia. “Ao começar a mergulhar mais atentamente na história do Libolo percebi que havia uma história muito apagada e comecei a questionar algumas coisas”, contou o académico.

Source: http://jtm.com.mo/local/carlos-figueiredo-apresenta-projeto-libolo/

 

“HÁ DESCONHECIMENTO ABSOLUTO” DA REALIDADE ANGOLANA

Carlos Figueiredo vai apresentar na segunda-feira o “Projeto Libolo”, livro que poderá contribuir para um maior conhecimento da realidade angolana, sobretudo tendo em conta que as relações económicas entre a China e o país africano são cada vez mais expressivas, implicando a contratação de tradutores que, muitas vezes, não estão familiarizados com as características da sociedade e sentem um “choque”. A obra composta por dois volumes já despoletou também um maior investimento na preservação do Património Material e Imaterial daquela região

Inês Almeida

 

A Câmara de Comércio de Angola em Macau convidou Carlos Figueiredo para apresentar o “Projeto Libolo” na segunda-feira e o docente não hesitou a aceder ao pedido por entender que é importante aliar as questões económicas às culturais. “Apesar de Angola ser o principal parceiro económico africano da China, há um desconhecimento absoluto do que é a realidade da sociedade angolana”, frisou o docente da Universidade de Macau (UM) em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“O desenvolvimento das relações comerciais obriga à contratação de tradutores e têm-se socorrido muito dos alunos de Macau, tanto da UM como do Instituto Politécnico de Macau e o que acontece é que eles chegam a Angola e não têm conhecimento nenhum do que é o país. Na integração na sociedade vê-se um desconhecimento que depois cria um choque”, defendeu o académico. Nesse sentido, “o projecto pode trazer mais conhecimento sobre a cultura de Angola”.

Carlos Figueiredo acredita que “as questões culturais também podem ter um grande impacto no turismo”. “O novo Presidente [angolano] tem nas suas linhas de acção uma aposta mais forte no turismo e as questões culturais surgem de braço dado”, sublinha o docente.

Também talvez por isso, sobretudo a partir deste ano, o “projecto Libolo” deixou de ter uma faceta apenas científica, abraçando “um lado social”. “Decorrente das investigações no Libolo estamos muito ligados à preservação do Património Material e Imaterial. Criámos grupos de dança, teatro, que fazem a preservação e divulgação do Património Intangível”, destacou o investigador.

A obra que estará em foco na Fundação Rui Cunha, numa sessão com início agendado para as 18:30, é composta por dois volumes, com o primeiro a apresentar as linhas de acção do projecto, os pesquisadores e o trabalho de campo desenvolvido entre 2011 e 2013. “Funciona também como um histórico de viagem porque estivemos a colectar dados sobre Angola e sobre as duas línguas da região do Libolo. São sobretudo dados linguísticos, históricos e antropológicos”. No fundo, “é uma introdução mais profunda das pesquisas e o trampolim para o segundo volume que apresenta a região”, explicou Carlos Figueiredo.

Cultura marcadamente africana

Um dos pontos é a questão dos dados geográficos, outro tem a ver com dados históricos do Libolo pré-colonial, colonial e pós-colonial. “A região tem características muito específicas porque é uma região montanhosa. É uma das últimas regiões a ser colonizada pelos portugueses, já quase no século XX”. “Há um pouco a ideia de que a História foi só construída por um dos lados, que foi chegar, ver e vencer, e não foi bem assim, por isso, olhamos para a entrada tardia no Libolo e para o pouco impacto que os portugueses lá tiveram, porque em 1975 dá-se a sua retirada”, referiu o académico.

“A presença dos portugueses em Angola deu-se durante mais de 500 anos mas, no Libolo, foram pouco mais de 50 e há uma grande presença da sua identidade africana. É uma cultura de tradição africana com pouca influência portuguesa. Tem as suas próprias danças, músicas, lendas, tradições, e elas são preservadas”, frisou Carlos Figueiredo.

Nesse sentido, “o Libolo é uma região bastante representativa” quando se fala de estudos sobre a identidade de Angola e a riqueza do seu património, pois, “todas as características estão muito preservadas”.

Numa vertente mais histórica, o académico frisa que esta é “uma região onde o tráfico de escravos é clandestino e foge do olhar das autoridades portuguesas”. “São comerciantes portugueses de S. Tomé e Príncipe, brasileiros e holandeses, sobretudo holandeses, que vão ter muita afinidade com estes povos”.

“O tráfico é feito pelos holandeses e, em menor escala, por franceses e ingleses e tem um impacto na diáspora porque eles [escravos] vão-se encontrando com outras civilizações pelo mundo fora, mesmo na Ásia”. Nesse sentido, ao estudar estes movimentos, “percebemos qual o impacto que têm na edificação de novas questões culturais e o impacto na emersão de novas línguas, novos crioulos”.

Este livro resultou do trabalho de 20 pesquisadores. “De Macau sou eu e Roberval Teixeira e Silva, do Brasil estão envolvidas oito universidades e também temos colaboradores em Portugal, como a Universidade de Lisboa”.

A obra inclui ainda um artigo científico que se debruça sobre aspectos particulares do português falado nessa região. “Há um contacto diário entre o Português e o Kimbundu, e isso tem influência na fala, fonologia e léxico, que está bem marcado tanto na língua nativa como no português”, realçou Carlos Figueiredo.

Source: http://jtm.com.mo/local/ha-desconhecimento-absoluto-da-realidade-angolana/