FAH-DPORT: In the media – CENTRO BILINGUE DA UM DEVE GANHAR FÔLEGO EM 2018, Jornal Tribuna de Macau, 22/11/2017

28 Nov 2017


Palestras, lançamentos de obras e cursos são alguns projectos que o Centro de Ensino e Formação Bilingue Chinês-Português da UM pretende abraçar no próximo ano. Convicta de que esta plataforma poderá ter “um futuro brilhante”, a directora do Centro, Maria José Grosso, reconhece que é necessário atrair mais recursos humanos especializados e ultrapassar alguns obstáculos para que os projectos passem do papel para a prática

 

Catarina Almeida

 

A inauguração do Centro de Ensino e Formação Bilingue Chinês-Português da Universidade de Macau (UM) ocorreu em Maio, mas o arranque em termos de trabalho propriamente dito foi dado em Agosto, com um curso de língua portuguesa para o “staff” da instituição de ensino superior. Ainda numa fase embrionária, o Centro dirigido por Maria José Grosso tem vários projectos pensados para 2018. Associados ao Centro estão a directora, a subdirectora Jing Zhang e alunos de Mestrado e Doutoramento.

Ainda que o balanço destes três meses de funcionamento seja positivo, importa ultrapassar alguns obstáculos para materializar as ideias. “Há recursos humanos mas faltam duas coisas: recursos humanos especializados e ao mesmo tempo motivados, porque a motivação quase que é tão importante como o especializado”, defendeu Maria José Grosso, ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“Quando falo especializado é alguém que também tenha a humildade de estar a aprender. O que me interessam determinadas teorias e conceitos que depois chegam cá e não podem ser aplicados? A pessoa continua com aquelas ideias e não tem em conta o contexto social, educativo, político, quem são as pessoas…. e outra coisa, o contexto administrativo e legislativo”, apontou a docente, salientando que “muitas vezes a legislação interna das universidades e instituições ultrapassa a externa”.

Não obstante alguns constrangimentos que espera ver ultrapassados, o Centro de Ensino e Formação Bilingue concluiu, com sucesso, um curso de 30 horas com 12 formandos, incluindo pessoal do Departamento de Japonês e Português da UM. “Já tinha sido realizado um, há muitos anos, quando estive em Macau na primeira fase, de 90 a 99. Foi um curso relativamente pequeno, dividido em cinco módulos”, explicou.

O curso foi ministrado por cinco professores assistentes bilingues, além da directora, com vista a desenvolver, fora do contexto de aula, a “compreensão e produção do oral num ambiente que seja muito próximo da situação de comunicação real e a característica é, de facto, a rapidez”.  “Eram cerca de 12 pessoas que reagiram muitíssimo bem, muito animadas, com muita motivação, de tal maneira que ficámos de fazer um segundo curso, para o segundo semestre, onde iremos insistir na oralidade e escrita mas com o objectivo – muito motivante – de fazerem o exame elementar do CAPLE (A2)”, anunciou Maria José Grosso.

Por outro lado, a directora frisa que, através desta formação, foi possível perceber as reais necessidades dos destinatários do curso. “Numa primeira parte, dirigimo-nos ao secretariado dos vários departamentos e falámos com várias pessoas sobre que tipo de necessidades teriam”, disse. “Aquilo que eu penso geralmente não corresponde ao tipo de necessidades que eles dizem ter. Na minha prática, todas as mensagens são sempre em Inglês. A língua da Universidade é o Inglês, portanto, pensava que um dia gostavam de escrever em Inglês. Mas, isso não acontece porque o que eles [“staff”] querem é estabelecer uma boa comunicação oral com as pessoas em Português”, destacou.

No fundo, “há dois grandes tipos de necessidades: as de trabalho, mas claro que são realizadas na língua inglesa, e de estarem a fazer aquilo por motivação, porque gostam de saber outra língua”. Esta condição obrigou a “remodelar um pouco o curso porque o que queriam era de facto uma comunicação no domínio privado, um bocadinho fora do que seria a sua área profissional”, onde falam sempre Chinês e Inglês”, apontou Maria José Grosso.

 

“Só teoria não basta”

A própria infraestrutura que acolherá o Centro ainda está em fase de preparação e estruturação. “É um espaço muito bom, aberto, enorme e que pode ter um futuro brilhante. Em termos de espaço é excelente. Segundo percebi, pode ser bem equipado agora, é como tudo na vida, tem de ter uma aplicação e as pessoas que ficarem têm obviamente de saber o que vão fazer com o Centro”, frisou.

O Centro nasceu também tendo por base um projecto antigo da docente da UM, um referencial de ensino de Português para falantes de língua materna chinesa desenvolvido há cinco anos. “A Universidade, na altura, financiou e o dinheiro foi para pagar os assistentes, portanto, as pessoas que recolheram inquéritos e analisaram. Envolveu muitas universidades, todas as instituições de Macau e também da China”, recordou.

Mas, “como é óbvio, havia necessidade de termos mais recursos humanos”. “Já não digo financeiros, mas principalmente humanos porque a grande questão que se coloca aqui é que neste tipo de trabalhos que implica uma aplicação as pessoas têm de saber a teoria, mas só teoria não basta. O problema que temos, até a nível académico, é justamente esse: as pessoas estão habituadas a fazer trabalhos académicos, teses, algo de grande envergadura mas que geralmente ficam bem numa biblioteca e que as pessoas lêem, voltam a fazer tese, fazem revisão de literatura, e voltam a citar não sei quantas vezes, mas depois, geralmente não há a aplicação para o ensino”, lamentou.

Até porque, esses trabalhos “não podem ser só baseados num empirismo porque é falso que a pessoa que tem muita experiência, trabalhe bem”. “Tem de haver conhecimento científico e também precisamos de ter a humildade de ir para as escolas, para a sociedade, pôr em prática e se não estiver muito bem voltar atrás”, salientou.

 

Das palestras aos livros

Até ao final do ano e início de 2018, o Centro estará envolvido em vários projectos. No dia 28, às 18:00, a professora Catarina Gaspar irá proferir uma palestra sobre o Ensino Bilingue Intercultural. Ainda com esta docente e outra da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Maria José Grosso elaborou um projecto que envolve outros professores de Portugal e do Centro (subdirectora e alunos). Em causa está o desenvolvimento das práticas do professor tanto em Portugal como na China e Macau.

Em andamento está também o lançamento de uma aplicação móvel, proposta pelo Centro de Difusão de Língua, constituída por um corpus de 900 palavras em Português e Chinês.

Além disso, deverá ser lançado em Dezembro o livro “Português em Macau e no Interior da China”. “Vamos ver porque estas coisas nem sempre são tão rápidas como pensávamos. Já estava para ser publicado, mas pensamos que até Dezembro deve estar para sair”, contou.

Ao nível de publicações, o Centro da UM deverá estar ainda envolvido na revisão de um dicionário de linguística e didáctica da autoria de Maria José Grosso e da docente Francisca Xavier. “É um dicionário que começámos a fazer ainda ligado a um Centro da Universidade Nova de Lisboa e, de facto, está feito, só precisa de ser revisto. É um dicionário de termos, linguístico e ao mesmo tempo de termos didácticos”.

A responsável pelo Centro gostaria também de dar continuidade a um dicionário sobre Patuá, da autoria de José Santos Ferreira (Adé). “É um dicionário com mais de 700 páginas que vai ter muito interesse para Macau mas são coisas que quero trazer para o Centro e que, como é óbvio, não depende só do Centro”, apontou.

Em 2018, a direcção do Centro de Ensino e Formação Bilingue gostaria de levar a cabo o segundo curso direccionado para o “staff” e desenvolver uma oficina teórico-prática. “Tinham-me referido que havia a necessidade do desenvolvimento linguístico e científico, não só de professores, mas principalmente de algumas pessoas que teriam vantagem em atingir um determinado nível de proficiência no Português”, explicou. “Em 2018, vamos ter palestras ligadas à avaliação e realização de exames. Há a ideia de que os exames que se fazem para o Português como Língua Estrangeira são iguais a quaisquer exames, mas não são. Têm uma filosofia de base muito diferente porque são feitos através de níveis”, disse.

“Espero sinceramente que haja motivação e que não haja muitos obstáculos principalmente os administrativos e da legislação que não se conhece…”, referiu Maria José Grosso.

Source: http://jtm.com.mo/local/centro-bilingue-da-um-deve-ganhar-folego-em-2018/